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sexta-feira, 14 de junho de 2019

O único Salvador e Sua única Igreja

O único Salvador e Sua única Igreja
DOM HENRIQUE SOARES
Caro Amigo, gostaria, de recordar uma declaração da Santa Sé, da Congregação para a Doutrina da Fé, publicada por ordem de São João Paulo II, a Declaração Dominus Iesus. O objetivo do documento era, na verdade, “recordar aos Bispos, aos teólogos e a todos os fiéis católicos alguns conteúdos doutrinais imprescindíveis” para a nossa fé católica e apostólica.
Primeiramente o texto critica uma ideia muito difundida hoje em dia que afirma que todas as religiões têm o mesmo valor, pois cada uma ensina uma parte da verdade. A verdade divina é tão grande – dizem alguns – que nenhuma religião por si só pode exprimi-la totalmente. Assim, Jesus Cristo seria apenas parte da verdade de Deus. Mas esta verdade precisaria ser completada pelo que outras religiões apresentam: Buda, Confúcio, Maomé, etc, seriam outras manifestações da única verdade divina. Jesus poderia até ser a manifestação mais completa desta verdade, mas Ele não seria a verdade absoluta e universal.
Que pensar de tal opinião? O Documento insiste que é necessário “reafirmar, antes de mais, o caráter definitivo e completo da revelação de Jesus Cristo. Deve, de fato, crer-se firmemente na afirmação que no mistério de Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado, que é o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14,6), dá-se a revelação da plenitude da verdade divina. (...) A verdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salvação dos homens, manifesta-se a nós por esta revelação na Pessoa de Jesus Cristo que é simultaneamente o mediador e a plenitude da revelação”.
Em outras palavras, “é contrária à fé da Igreja a tese que defende o caráter limitado, incompleto e imperfeito da revelação de Jesus Cristo, que seria complementar da que é presente nas outras religiões. (...) Temos em Jesus Cristo a revelação plena e completa do mistério salvífico de Deus!” Assim, Jesus é a revelação plena do Pai e tudo quanto contradiga Sua revelação não está de acordo com a verdade divina. Isso não significa que as religiões não-cristãs sejam más: elas têm elementos da verdade e até podem ajudar o homem na sua busca de Deus, que “não deixa de Se tornar presente sob variadas formas quer aos indivíduos, quer aos povos, através de suas riquezas espirituais, das quais a principal e essencial expressão são as religiões, mesmo se contêm lacunas, insuficiências e erros”. Contudo tais religiões não são fruto da revelação divina e sim da busca de verdade que, por vontade de Deus, reside no coração do homem.
Quanto aos textos “sagrados” dessas religiões (o Corão, o Veda, etc), são expressão dessa busca que se encontra no íntimo de cada ser humano e, neste sentido, merecem nosso respeito. Contudo não são inspirados pelo Espírito Santo no sentido da inspiração bíblica.
O Documento afirma também que “a ação salvífica de Jesus Cristo, com e pelo Seu Espírito, estende-se, para além dos confins visíveis da Igreja, a toda a humanidade”. Isto significa que mesmo um não-cristão pode salvar-se pois, seguindo sua consciência orientada para o bem, ele está seguindo os impulsos do Espírito do Cristo morto e ressuscitado. Todos podem salvar-se, mas toda salvação vem através do Espírito do Cristo, único Senhor e Salvador da humanidade: “os homens só poderão entrar em comunhão com Deus através de Cristo e sob a ação do Espírito”, quer eles tenham quer não tenham consciência disso. Assim, ao mesmo tempo em que afirma que Jesus é o único Salvador, o Documento deixa claro que, em Jesus todos poderão encontrar a salvação, mesmo aqueles que não o conhecem nem reconhecem explicitamente.
Depois disto, o texto da Santa Sé trata da questão da Igreja. O raciocínio é decorrente do que foi dito sobre Jesus Cristo. Vejamos. “O Senhor Jesus, único Salvador, não formou uma simples comunidade de discípulos, mas constituiu a Igreja como mistério de salvação: Ele mesmo está na Igreja e a Igreja Nele (cf. Jo 15,1ss; Gl 3,28; Ef 4,15s; At 9,5); por isso, a plenitude do mistério salvífico de Cristo pertence também à Igreja, unida de modo inseparável ao seu Senhor”. Em outras palavras: Cristo uniu a Igreja à Sua missão salvífica, de modo que Ele mesmo opera a salvação “na Igreja e através da Igreja”, que é Seu Corpo (cf. 1Cor 12,12s.27; Cl 1,18). Por isso mesmo, “em relação com a unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, deve-se crer firmemente  como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por Ele fundada. Como existe um só Cristo, também existe um só Seu Corpo e uma só Esposa: uma só Igreja católica e apostólica”. Assim, “segundo a fé católica, a unicidade e unidade, bem como tudo o que concerne a integridade da Igreja jamais virão a faltar. Os fieis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica – radicada na sucessão apostólica – entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica”. Esta Igreja de Cristo, como sociedade constituída neste mundo subsiste ( = mantém-se, permanece no que tem de essencial) na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele. Com isso o Documento quer afirmar claramente que “a Igreja de Cristo, apesar das divisões dos cristãos, continua a existir plenamente na Igreja Católica”. Somente a Igreja católica conservou a plenitude daqueles elementos próprios da Igreja de Cristo. Quais seriam estes elementos? Vejamos alguns: a Palavra de Deus escrita e transmitida oralmente, a Eucaristia e os demais sacramentos, a sucessão apostólica presente sobretudo no Episcopado, o ministério petrino, a vida de fé, esperança e caridade, a ação de anunciar o Evangelho da graça, o martírio de tantos membros da Igreja, a presença materna da Virgem Maria e dos santos, etc. Todos estes elementos pertencem à Igreja de Cristo. E as outras Igrejas (as Igrejas chamadas ortodoxas) e Comunidades cristãs (as comunidades protestantes e pentecostais?) Elas, graças a Deus, possuem tantos elementos da Igreja de Cristo: no caso dos irmãos católicos ortodoxos, falta-lhes somente o ministério petrino; no caso das comunidades nascidas da Reforma protestante, apesar de graves lacunas, há tantos elementos que nos unem: o amor à Palavra de Deus escrita, o testemunho de Cristo e da Trindade Santa, a vida de fé, esperança e caridade, o martírio de tantos irmãos pelo Nome de Jesus. Todos estes são elementos da Igreja de Cristo que, graças a Deus, estão presentes nestas Comunidades eclesiais e nos impelem à unidade da única Igreja de Cristo. Uma coisa é certa, no entanto: “os fieis não podem imaginar a Igreja de Cristo como se fosse uma soma das Igrejas e Comunidades eclesiais; nem lhes é permitido pensar que a Igreja de Cristo hoje não exista em parte alguma, tornando-se, assim, um mero objeto de procura por parte de todas as Igrejas e Comunidades”. Com isto não se quer dizer de modo algum que quem está fora da Igreja católica não se salve ou não pertença à Igreja: “as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora tendo faltas, não se pode dizer que não tenham importância no mistério da salvação ou sejam vazias de significado, já que o Espírito não Se recusa a servir-Se delas como instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi dada à Igreja de Cristo”.
Finalmente o Documento explica que a Igreja não é o Reino, mas é sinal do Reino, “é o Reino já presente em mistério”. Este Reino de Deus foi inaugurado por Cristo e somente Nele pode acontecer em plenitude. A Igreja, como sinal deste Reino e como Corpo do Cristo, único Salvador, é necessária para a salvação. “Só Cristo é o mediador e caminho da salvação; ora, Ele torna-Se presente no Seu Corpo, que é a Igreja. (...) Esta doutrina não se contrapõe à vontade salvífica universal de Deus (cf. 1Tm 2,4); daí a necessidade de manter unidas as duas verdades: a real possibilidade de salvação em Cristo para todos os homens e a necessidade da Igreja para essa salvação”.
Em outras palavras: todo aquele que, sem culpa não (re)conhece a Cristo ou não (re)conhece a Igreja católica, seguindo retamente sua consciência pode ser salvo. Mas esta salvação vem do Cristo que é Cabeça da Igreja, que subsiste plenamente na Igreja católica. Toda salvação vem de Cristo; toda salvação passa, de modo que só Deus conhece, pela Igreja católica, Corpo do Salvador.
Estes pontos aqui elencados exprimem elementos muito importantes da nossa fé e devem ser sempre e em toda parte sustentados com firmeza firmeza e serenidade. O Senhor nos ajude a fazê-lo!

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